Primeiro abastecimento de navio com etanol no Brasil (Foto: Divulgação Copersucar)
Indústria de etanol está pronta para abastecer transporte marítimo internacional; falta alinhar regulações e preço do carbono

A indústria brasileira de etanol está atenta a um novo e promissor mercado que se desenha no cenário internacional: a descarbonização do transporte marítimo.
 
Estimativas setoriais indicam que o reconhecimento do biocombustível como uma solução para substituir o bunker fóssil pode render ao Brasil algo entre R$ 75 bilhões e R$ 150 bilhões por ano com exportação de etanol para abastecer navios.
 
Segundo Gustavo Mariano, vice-presidente de Trading na Inpasa, a aprovação do mecanismo Net Zero da Organização Marítima Internacional (IMO, em inglês) tem o potencial de alavancar a demanda pelo biocombustível brasileiro de cana e milho em 25 bilhões de litros por ano.
 
Com capacidade instalada de 6,7 bilhões de litros de etanol por ano, a Inpasa está investindo na expansão da produção a partir do milho e enxerga na navegação uma nova oportunidade de mercado.
 
Mariano participou na manhã desta terça (4/8) de um evento na Confederação Nacional da Indústria (CNI) sobre a descarbonização marítima e o que isso significa para o setor produtivo.
 
O mantra de empresários e governo brasileiros é que o país pode liderar a descarbonização do setor que responde por 3% das emissões globais e mais de 80% do frete internacional. E os biocombustíveis são uma solução pronta para isso.
 
Mas para aproveitar a janela de oportunidade, será preciso atuar em, pelo menos, três frentes regulatórias ao mesmo tempo, alerta Mariano.
 
Enquanto 176 Estados-membros discutem na IMO um esquema de precificação de carbono e a formação de um fundo para incentivar combustíveis sustentáveis, a União Europeia avança com seu próprio mecanismo, o FuelEU Maritime, e o Brasil dá os primeiros passos no desenho de uma política para combustíveis marítimos.
 
A visão compartilhada entre governo e agentes do mercado é de que é preciso alinhamento para evitar uma colcha de retalhos regulatória.

A IMO deve retomar em dezembro deste ano a negociação que foi adiada em 2025, para adoção de um mecanismo que prevê taxas de US$ 100 a US$ 380 a tonelada de CO2 para grandes embarcações, a depender da eficiência energética e adoção de medidas para reduzir emissões.

A adoção enfrenta resistências de grandes produtores de petróleo como Arábia Saudita e Rússia, além dos Estados Unidos, que sob a gestão de Donald Trump tem bloqueado acordos climáticos em todos os fóruns internacionais possíveis.

Bruno Arruda, chefe da Divisão de Negociação Climática do Itamaraty, conta que a posição do Brasil na IMO é a favor de uma transição gradual (até o momento contemplada na proposta negociada), que não penalize distâncias nem bloqueie tecnologias  — como a rota dos biocombustíveis.

Em julho, uma parceria entre CMA CGM, Copersucar, AGEO Terminais, Santos Brasil e Bunker One concluiu a primeira operação de abastecimento com etanol de um navio porta-contêineres equipado com motor tricombustível certificado no Brasil.

Grandes transportadoras europeias Maersk e Wartsila também estão olhando para esta alternativa, enquanto derivados de hidrogênio ainda precisam ganhar escala e ter preço competitivo.

Ao mesmo tempo em que essas iniciativas são aliadas da indústria brasileira nos esforços para desfazer a resistência da Europa em relação aos biocombustíveis, elas também trazem à tona um ponto fundamental da equação: preço.

Para Tomás Manzano, CEO da Copersucar, um mercado de carbono consistente pode ajudar, precificando emissões e tornando os biocombustíveis mais competitivos em meio à volatilidade dos combustíveis fósseis.

Por aqui, o transporte marítimo está previsto para entrar na terceira fase do Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE).

Também no evento desta manhã, a secretária extraordinária do Mercado de Carbono, Cristina Reis, lembrou que a regulamentação das obrigações de Monitoramento, Relato e Verificação (MRV) está em consulta pública e disse que as contribuições do setor ajudarão a calibrar a política nacional.

Fonte: Eixos

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