Escalado do conflito, fechamento do Estreito de Ormuz e alta do petróleo já começam a ter efeitos diretos na economia do Brasil, impactando juros, inflação, exportações e preço do frete

Os efeitos da guerra no Oriente Médio poderão ser sentidos pelos brasileiros mais cedo do que se espera, já que o conflito pode impactar os preços dos combustíveis, dos fretes, dos alimentos e, consequentemente, a inflação, afetando diretamente o bolso.

O desafio dos economistas para calibrar as expectativas é saber, com as notícias que se tem até agora, qual será a duração e o tamanho do conflito e, portanto, seu impacto sobre os preços do petróleo, do câmbio e outros ativos. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, já disse que projeta que a guerra deve durar entre quatro a cinco semanas.

Com a escalada do conflito e a paralisação do tráfego de petroleiros pelo Estreito de Ormuz, o preço do petróleo no mercado internacional chegou a encostar em US$ 120 nesta segunda-feira, atingindo níveis não vistos desde meados de 2022, enquanto alguns grandes produtores reduziram a oferta do combustível.

Diante deste cenário, a defasagem do preço de venda da gasolina e do diesel nas refinarias da Petrobras (PETR3;PETR4) atinge níveis inéditos, na comparação com o patamar global. Isso vai ampliar a pressão sobre os valores praticados no Brasil, que podem aumentar no curto prazo.

De acordo com dados da Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom), considerando a abertura do mercado de hoje em relação ao fechamento de sexta-feira, a Petrobras está vendendo o diesel no país 85% mais barato em comparação ao mercado internacional. No caso da gasolina, o preço no Brasil está 49% abaixo da paridade internacional.

Apesar de a Petrobras não ter alterado seus preços, o valor dos combustíveis já aumentou nos postos com o início da guerra, já que cerca de 10% a 30% do consumo é importado, cujos preços acompanham a variação do barril.

De acordo com levantamento da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), na média nacional, o preço da gasolina vendida nos postos passou de R$ 6,28, na última semana de fevereiro, para R$ 6,30, na semana que terminou no dia 7 de março. Foi uma alta de 2 centavos, o que corresponde a 0,33%. Foi a primeira alta no preço da gasolina desde a semana de 11 de janeiro, quando o combustível subiu de R$6,29 para R$6,32 na média do país.

No mesmo período, o diesel passou de R$ 6,03 para R$ 6,08, um aumento de 5 centavos, equivalente a 0,83%. Foi o primeiro avanço desde a semana de 4 de janeiro, quando o preço médio passou de R$ 6,02 para R$ 6,05.

Na sexta-feira passada, durante conferência de resultados financeiros de 2025, Magda Chambriard, presidente da Petrobras, disse que o objetivo da estatal é evitar o repasse da volatilidade de preços do mercado internacional ao consumidor brasileiro.

Inflação

O receio do mercado é que uma alta mais persistente do petróleo acabe contaminando preços no Brasil, justamente num momento em que a inflação vinha mostrando desaceleração, de 5,06% em fevereiro de 2025, no acumulado em 12 meses, para 4,44% em janeiro deste ano. O BC pode manter os juros elevados por mais tempo, ou reduzir o ritmo de cortes, para preservar essa trajetória de queda.

— O petróleo já disparou e, como importamos boa parte da nossa energia, isso pode acender a inflação de maneira mais instantânea. Gasolina mais cara significa frete mais caro e, em última instância, pressão sobre os preços ao consumidor — explica Otávio Araújo, consultor sênior da Zero Markets Brasil.

Momentos de tensão global costumam fortalecer o dólar. Se o cenário de aversão a risco ganhar força, a divisa americana sobe e os produtos importados podem ficar mais caros no Brasil, o que adicionaria nova camada de pressão inflacionária, explica Marco Mecchi, diretor de investimentos da Azimut Brasil Wealth Management.

Juros

A piora das tensões no Oriente Médio começa a lançar dúvidas entre economistas sobre a magnitude dos cortes da taxa básica de juros a serem realizados pelo Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central, que se reúne na próxima semana.

A perspectiva é que, como indicado na última reunião, seja iniciado o ciclo de redução da Selic. A discussão no momento é se o corte será de 0,50 ponto percentual (p.p.), com o Copom baixando a taxa dos atuais 15% para 14,5% ao ano, ou uma redução de 0,25 p.p. Mas, com escalada da guerra, aumentou o número de pessoas no mercado que apostam no corte menor, de 0,25 p.p.

Frete

Os preços de frete já estão sob efeito do conflito no Oriente Médio. Dados compilados pela consultoria Solve Shipping apontam para uma média de US$ 3.100 por contêiner de 40 pés na rota de importação Ásia-Brasil na quinta-feira, o triplo da média de fevereiro, sem contar as sobretaxas por causa do conflito.